O Pedestal do Líder Bruxo

novembro 7, 2012 em TCS por Eros

Meu foco sacerdotal na divulgação da Wicca tanto na internet quanto pessoalmente me mostrou alguns padrões interessantes que somente recentemente eu consegui entender.  Um desses padrões é a tendência de bruxos novatos, ou às vezes bruxos com mais experiência, de glorificar iniciadores, sacerdotisas com mais anos de estrada e demais figuras públicas da Wicca como sendo “o máximo”.  É normal imaginar que esses bruxos mais experientes, que vou generalizar como iniciadores, sejam pessoas com bastante conteúdo e muito a ensinar e a dividir – afinal, eles têm mais anos de prática que os novatos.  Mas o que os novatos não sabem é que existe uma linha tênue entre admirar alguém e colocá-lo num pedestal.
Existe um conceito interessante da psicologia que conheci uns anos atrás, chamado Efeito Aura e que se aplica perfeitamente à forma como novatos enxergam iniciadores.  Um psicólogo pediu para dois comandantes avaliarem os aspectos físicos de seus soldados e parâmetros como inteligência e outros traços de caráter.  Baseado nas respostas, o psicólogo concluiu que os soldados que tinham aspectos físicos mais bem cotados também tinham, em média, notas mais altas em inteligência e em critérios difíceis de serem avaliados, como traços de personalidade.  O contrário também acabou sendo comprovado – soldados que possuíam uma característica negativa forte recebiam notas ruins em todos os critérios.  Ou seja, quando uma característica sua é muito forte, ela mascara todas as opostas, elevando ou diminuindo a percepção geral que as pessoas têm de você além da realidade.  Isso é o que chamamos de efeito aura e podemos entendê-lo como um equivalente ao resultado da magia de glamour.  Se um iniciador é visto por um novato como alguém “super” sábio, haverá uma tendência de ele ser visto como alguém “super” em todos os aspectos da vida.

O efeito aura tem suas vantagens e aplicações, mas de modo geral ele tem um efeito devastador na relação dedicado-dedicador (ou mestre-aprendiz).  Novatos tem uma tendência de assumir que, por terem muitos anos de Bruxaria, iniciadores são pessoas sábias, inteligentes, bem resolvidas, excelentes profissionais, têm casamentos ideais e são detentores de uma vida perfeita.  O deslumbre inicial as impede de enxergar como os iniciadores são de verdade – seres humanos com problemas, contas a pagar, que ficam doentes e que tem seus próprios nós mágicos a resolver.  E além da percepção irreal que os novatos passam a ter de iniciadores, o efeito aura gera um grande problema adicional.  Muitos iniciadores acabam sendo afetados pela percepção que as pessoas têm deles e passam a acreditar que são, na verdade, uma cópia perfeita da imagem que projetam.

Para deixar um pouco mais claro como essa situação é do ponto de vista de um iniciador, vamos inverter os papéis.  Por mais estranho que possa ser a princípio, o ego adora saber que há um séquito de novatos que acha você a última coca cola do deserto.  Pessoas que estão dispostas a pegar dois ônibus pra assistir uma de suas palestras ou que dão um nó nas próprias finanças para ir a um evento em outra cidade simplesmente por que você estará lá.  Que ser humano não teria a autoestima massageada por um bando de pessoas fazendo questão de estar perto de você, de ouvir o que você tem a dizer e que, depois, espalham por aí o quão orgulhosos estão de terem te conhecido pessoalmente?  E claro, o iniciador sabe que precisa agradar seu público e fará o possível para estar sempre em seu máximo desempenho.  E é justamente aí onde está um dos maiores perigos do caminho do iniciador.

A partir do momento em que você passa a se preocupar em não decepcionar seu público, você começa a agir de forma artificial para manter-se sempre “no topo”.  O problema é que essa é uma atitude fútil – nenhum ser humano consegue dar sempre 100% de si o tempo inteiro sem ferrar com as coisas de tempos em tempos.  E para defender sua imagem o iniciador começa a mascarar eventos que revelam suas fraquezas ou que revelam quem ele verdadeiramente é.  O iniciador começa a pensar; não posso dizer para as pessoas que estou gripado senão elas vão pensar que não sou um bruxo poderoso o suficiente para evitar magicamente uma simples gripe.  Depois de uma semana pesada em casa ou no trabalho, o iniciador fica receoso em pedir colo para um de seus amigos bruxos pensando que uma pessoa na sua “posição” não deveria precisar de colo.  O iniciador, muitas vezes inconscientemente, começa a evitar externar os traços que o tornam humano para não descer do pedestal.

No entanto, todo mundo se preocupa com a sua imagem e a necessidade de impressionar os outros também é um traço humano, então qual o problema?  O problema é que os degraus que levam ao pedestal só servem para subir, mas para descer dele, só levando um tombo.  O tombo pode vir de várias formas, mas a principal delas é uma cisão que ocorre normalmente depois de que o novato aprendeu o suficiente para pensar e criar por si próprio, dois ou três anos depois do início do relacionamento mestre-aprendiz.  Exatamente da mesma forma que o adolescente se rebela ao questionar a figura do pai-mãe-herói que se desenvolveu na infância, o novato começa a enxergar as falhas do iniciador – por mágoas acumuladas, rachaduras no efeito aura do iniciador e desavenças mal resolvidas.  Durante uma discussão mais pesada, se a questão do efeito aura tiver sido mal resolvida, pode ser que o iniciador não admita que o novato possa estar correto.  Pode ser que o novato já venha enxergando através da máscara construída a partir do efeito aura do iniciador e passe a assumir tudo o que o iniciador diga como mentira.

Como “quando um não quer, dois não brigam” normalmente discussões feias são um misto de problemas de percepção das duas partes.  A partir de então o efeito aura se inverte – o iniciador é um hipócrita, tudo o que ele falou eram mentiras, ele nunca soube de nada, tudo o que ele ensinou era invenção, tudo o que ele sabia foi ensinado por outras pessoas, ele só estava repetindo o que lhe foi dito.  Como o iniciador estava se protegendo por detrás de uma máscara que ele assumia como parte da realidade, ter que ouvir ecos da realidade nas palavras do novato dói, e ele também passa enxergar o novato através de uma lente borrada – ele era uma sanguessuga, ele nunca foi leal a mim, ele falava mentiras pelas minhas costas, ele estava tentando virar as pessoas contra mim.  Ou seja, anos de amizade e trabalho juntos jogados fora porque o novato enxergou o iniciador através de uma máscara e o iniciador aceitou vesti-la.  Tanto o novato quanto o iniciador se esquecem de que aprenderam um com o outro e cresceram com a convivência.  E por descartar tudo o que viveram juntos como inválido, retrocedem anos em seu desenvolvimento.  E o mesmo processo ocorre em qualquer relação onde há uma grande diferença inicial de “hierarquia” como na relação pai/mãe-filho, orientador-orientando, mestre-discípulo, etc.  A elevação ao pedestal ocorre em várias esferas de relacionamento e precisamos estar ciente de sua existência para evita-la.

Agora projete essa situação para um grupo.  Um iniciador normalmente tem vários novatos sendo treinados, em diferentes estágios de deslumbramento com a imagem que criaram a respeito do líder.  Se, logo de início, o iniciador aceita vestir a máscara que seu efeito aura gera, no futuro vai ser extremamente difícil para ele aceitar voltar atrás e chegar à conclusão de que é simplesmente um ser humano que sabe um pouco mais que os demais.  Portanto ou ele é derrubado de seu pedestal ou se agarra a ele, gerando brigas, cisões e desentendimentos ao longo dos anos quando alguém o questiona.  E é um pouco injusto cobrar do iniciador que ele se recuse a vestir a máscara do efeito aura por que, afinal, é humano gostar de ser admirado.  E um iniciador nada mais é do que humano.

Mas como cortar os problemas que o efeito aura geram em longo prazo?  Não podemos cobrar dos novatos algo que está além de seu controle – essa fascinação por algo novo é parte do processo como um todo e importante para impulsionar os novatos além do básico.  Portanto, mesmo sendo humano e vulnerável a subir no pedestal, a responsabilidade por evitar a subida é do iniciador.

Assim como sabemos que o caminho do iniciado não é para qualquer um, o caminho do iniciador é para muito, muito poucos.  E infelizmente, ao contrário de livros básicos de Wicca, não há muitas fontes que iniciadores possam consultar para ajudar a lidar com suas questões.  A única outra fonte são outros iniciadores, mas, considerando a dinâmica de rompimentos da Wicca, são mínimas as chances de você ainda estar em contato com a pessoa que te iniciou depois de anos.  A ausência de contato, aliada às fofocas, problemas mal resolvidos e à própria natureza do bruxo querendo agarrar-se ao pedestal, faz com que essas questões simplesmente se perpetuem.  Pior, depois de anos, você tem seu próprio pedestal onde se agarrar, então as chances de você pedir ajuda à uma pessoa que te “feriu” anos atrás é ínfima.  E, em minha opinião, essa dinâmica que se retroalimenta é um dos grandes motivos pelos quais há tantas cisões e problemas de ego dentro da Wicca.  Lendo a descrição de Margot Adler sobre Maxine Sanders dando chilique em uma iniciação porque as coisas não foram organizadas como ela havia determinado, é fácil visualizar essa dinâmica negativa sendo perpetuada desde os tempos de Gardner.

Apesar de a grande maioria das pessoas na Wicca não ter inclinação para o caminho do Iniciador, é muito provável que acabemos envolvidos no treinamento de novatos em algum ponto.  Afinal, há muito mais interessados na Wicca do que pessoas disponíveis para ensinar.  Em muitos casos, às vezes simplesmente porque leu mais livros do que seus amigos, você acabará sendo elevado ao status de líder do círculo, por exemplo.  Portanto o conhecimento sobre as consequências de um efeito aura na relação líder-liderado é algo que precisa estar na mente de qualquer bruxo em posição de liderança.  Amizades, casamentos e vínculos mágicos poderosíssimos podem ser corrompidos pelo pedestal.  Quem sabe se estivermos cientes do efeito aura logo no início da relação não conseguiremos dar uma direção diferente para nossa religião nas próximas décadas?

Dylan Siegel
Elder da Tradição Caminhos das Sombras.